Alcindo troca "artilharia" por fazenda no Paraná
19/09 - 18h24
RIO DE JANEIRO - Marcar gols e conquistar vitórias deixou de ser uma preocupação para Alcindo Sartori. Agora, o ex-atacante de Flamengo, Grêmio, Kashima Antlers (JAP), entre outros, busca no agronegócio o mesmo sucesso que alcançou no futebol.
Aos 38 anos, completa 39 no próximo dia 21, Alcindo vive há dois anos na cidade de São Miguel do Iguaçu, no Oeste do Paraná, a 639 km de Curitiba. Lá tem trabalhado na administração da Fazenda Sartori, de propriedade de sua família.
"Meus pais moram aqui há dez anos. Temos uma fazenda. Está uma porcaria", conta o ex-jogador, sobre a atual fase dos negócios no campo. "O preço e a produção caíram, então teve muito problema. Vai demorar uns cinco ou seis anos para recuperar", continua.
Alcindo afirma que "toda a região está quebrada" e reclama do atual governo federal. "Ainda bem que o pessoal conseguiu prorrogar as dívidas com os bancos. Uma saca de soja estava custando R$ 50, hoje está R$ 23, por aí. Caiu a metade", explica o administrador.
No breve período em que está na cidade, Alcindo ainda não pegou um bom momento. "Meu pai administrava, mas agora estou tentando aprender as coisas com ele. Eu vim para cá e só peguei dificuldade em dois anos. Mas ele me disse para não desanimar", afirma.
Seguindo o conselho do pai, o ex-atacante já programa a seqüência do trabalho na fazenda, com plantações de soja e milho. "No mês que vem a gente já começa a plantar a soja", explica, reclamando que a colheita de milho feita recentemente não foi boa para os negócios.
Na nova rotina em São Miguel do Iguaçu, Alcindo conta que o fato de ter atuado em grandes times do Brasil não muda sua relação com as pessoas. "Eles estão acostumados comigo, pelo fato de eu estar aqui todo dia. São pessoas humildes, de interior, para eles eu sou mais um. Mas na hora de escolher o time da pelada, o bicho pega", brinca.
Apesar da atual distância para o futebol profissional e de sua nova atividade, Alcindo ainda pensa em voltar. E prepara-se para tentar a carreira de técnico. "Fiz um curso de treinador e estou por aí", diz. Mas, antes do Brasil, pretende iniciar o trabalho bem distante.
"Estou pensando em entrar no futebol de novo, mas no Japão. Aqui no Brasil, se aparecer a oportunidade. Mas lá para dar seqüência é melhor. Aqui não se consegue ter seqüência, conta-se muito com a sorte", afirma, elogiando Telê Santana e Valdir Espinosa como os melhores técnicos de sua época de jogador, e citando Vanderlei Luxemburgo e Tite como dois dos melhores da atualidade.
Sem desânimo Se atualmente Alcindo não pode desanimar para conseguir bons negócios no campo, antes o ex-jogador teve também de se superar para conseguir vencer no futebol. Principalmente no início de carreira, quando trocou o interior do Paraná pela cidade do Rio de Janeiro.
Alcindo é natural de Medianeira, que fica a 10 km de São Miguel do Iguaçu. Sua primeira experiência no futebol aconteceu na cidade de Cascavel, também no Oeste do Paraná. De lá saiu direto para as categorias de base do Flamengo.
"Totalmente diferente do que eu era acostumado. Foi difícil porque eu não tinha conhecimento de como era cidade grande, mas consegui superar", relembra Alcindo, que fez sua estréia como profissional pelo time rubro-negro em 1986.
Da Gávea, Alcindo partiu para o Morumbi em 1991. Ficou pouco tempo no São Paulo e logo estava em outro time tricolor, o Grêmio. No Sul, Alcindo ajudou a equipe gaúcha a voltar para a primeira divisão nacional, em 1992.
Apesar do bom momento no time gremista, um convite de Zico mudou significativamente a carreira de Alcindo. O atacante foi para o Kashima Antlers, do Japão. Lá virou ídolo da torcida, que fez até uma peruca imitando seu penteado, ralo no topo e comprido atrás.
"Eu gostava muito do Japão, me acolheram bem, fiz um bom trabalho. Se eu não tivesse tido problema no joelho, talvez estivesse lá até hoje", relembra o ex-jogador, que encerrou sua carreira aos 29 anos, após seguidos problemas nos dois joelhos.
Antes de parar, porém, Alcindo ainda defendeu o Verdy Kawasaki, também do Japão, e retornou ao Brasil. Sua primeira experiência em sua volta não traz grandes lembranças a Alcindo. O jogador teve uma rápida passagem pelo Corinthians em 1996.
"O único que eu não gostei foi do Corinthians. Onde eu dei mais meu sangue e as coisas não deram certo", relembra Alcindo, sobre os clubes por onde passou. "A gente acaba se estressando. Eu não fui mal, mas só vale o resultado", afirma o ex-atacante, que ajudou na conquista do título Ramón de Carranza, mas caiu com a má campanha do clube no Brasileirão.
Alcindo ainda passou por Fluminense, teve uma rápida volta ao Japão e tentou continuar pela última vez no CFZ, clube do Zico. Mas os problemas no joelho o fizeram parar. "Fiquei sentido porque não tinha seqüência para jogar", conta.
Dessas experiências, Alcindo elogia todos os clubes, mas dois em especial. "Gosto de todos, mas os que mais marcaram foram Flamengo e o Grêmio", diz, para depois ainda revelar sua alegria por ter atuado no Tricolor gaúcho.
"Eu sempre fui gremista. Tive a oportunidade de jogar no Grêmio, o time estava numa fase difícil, havia caído para a segunda divisão, mas demos uma mão. Apesar dos problemas financeiros que o clube atravessava", relembra.